O que é ser Indie Dev?

10 de julho de 2017 by Saulo Camarotti
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Você sabe o que quer dizer ser desenvolvedor Indie? Esta discussão já deu o que falar nos diversos fórums de discussão pela internet, mas ela se faz importante e necessária no contexto em que vivemos hoje.

Mas qual é a motivação de se definir algo que não necessariamente precisa desta definição? Com o surgimento de muitos festivais e eventos focados na produção independente de games, muitos colocam regras e diretrizes tentando categorizar e filtrar os seus participantes, deixando as vezes algumas equipes de fora, mesmo quando elas se consideram indie. Nossa busca por uma definição parte daí, uma tentativa de amenizar as discordâncias entre as diversas opiniões.

Se utilizarmos outras produções audiovisuais para nos balizarmos na definição do tema, chegamos no Indie Rock dos anos 80 e no Cinema Independente. Mesmo que esta definição esteja mais clara no Cinema e na Música, ainda muito se confunde dentro da indústria de jogos.

Buscar por uma definição na Wikipedia não é necessariamente encontrar a resposta mais correta, mas na indústria de cinema não existe a discussão sobre o que é e o que não é. Talvez porque quem não é não está tentando ser, e vice-versa. Já na definição de Jogo Eletrônico Independente do Wikipedia, já se constata a falta de uma definição clara, pois nem mesmo o artigo define o que seja. Vamos então aprofundar em cada um dos pontos mais vistos nas discussões sobre o tema.

Journey – Indie Game para PS3 e PS4

“Indie é iniciante”
A primeira confusão mais comum é entender que Indie é uma etapa inicial do aprendizado. Fazendo um paralelo com a escola, o Indie seria o estudante do ensino fundamental, onde se aprende a ler, escrever e os conhecimentos mais básicos. Então, pouco se espera de uma pessoa que está apenas começando. Entretanto, rapidamente percebemos que tem alguma coisa errada com esse conceito, já que jogos como Journey e The Banner Saga são considerados Indies, e de iniciante eles não tem nada. Existem até diversos casos de desenvolvedores da velha guarda, de mais de 20 anos de carreira, abrindo seus próprios estúdios Indies.

“Indie não tem dinheiro”
Outra confusão é entender que o Indie é aquele que não tem dinheiro. Ou seja, por não ter dinheiro, tem que optar por fazer algo menor ou mais simples. Também questiono esta definição com exemplos muito claros da indústria. That Game Company recebeu um contrato milionário para criar suas produções indies: Flow, Flower e Journey. Estes jogos, foram publicados pela Sony em seus consoles do Playstation, e são considerados um marco da produção independente no mundo. Se eles são Indies e tem dinheiro, logo, Indie não é sinônimo de bolso vazio.

“Indie não tem publicadora”
Por fim, a confusão mais comum é entender que o Indie não tem Publicadora. Refuto simplesmente exemplificando a existência de Publicadoras Indies, como a Devolver, Versus Evil and Surprise Attack. Elas publicam todos os anos jogos que são considerados Indies por todas as mídias. Ou seja, ter uma publicadora como aliada no processo de distribuição do jogo, não necessariamente o torna menos indie do que outros.

Agora, se resgatarmos o conceito de Cinema Independente, fica um pouco mais claro o significado original. No cinema indie busca-se o cinema como arte. Existe uma conexão do criador com sua obra. O diretor e os produtores são artistas de uma obra que procura levar ao público algo mais profundo, seja uma experiência estética ou uma vivência de um sentimento mais humano. A temática do cinema é influenciado por essa busca artística. A maneira de se gravar, de se editar, toda a estética, acaba sendo influenciada também por essa busca.

Fazendo um outro paralelo com o design gráfico e as artes plásticas, também vemos uma grande diferença entre a arte de um Flyer promocional e a arte colocada em uma galeria. O que nos faz entender que um é apenas um objeto promocional que se utilizou de técnicas artísticas, e o outro é uma obra de arte que merece seu apelo cultural? O que está por trás é a intenção e a conexão com o artista criador da peça.

Podemos fazer então um paralelo com Indie Games. Ao refutar as confusões comuns pela busca da definição e resgatando o conceito original da palavra, chegamos a conclusão que ser Indie é ser um artista. A sua real intenção de se criar o jogo não é financeira, e não é uma oportunidade de mercado, é a sua vontade profunda e humana de se conectar a outro ser, seja transmitindo uma emoção ou uma ideia. Mesmo que essas ideias e emoções sejam simples como “Nostalgia” e complexas como “Superação da Depressão”, se existe uma verdadeira intenção do criador de se expressar através dos jogos, ele é de fato indie.

Tower Fall Ascension – Indie Game para PC e PS4

Muitos desenvolvedores podem ser iniciantes, podem não ter dinheiro, podem não ter publicadora. Mas se sua percepção frente à experiência criadora, estética, emocional e humana é limitada, ou seja, vê o jogo apenas como um produto comercial e business, ele não é Indie. Ele é apenas um iniciante, com uma equipe pequena, sem dinheiro e sem publicadora. Mas é importante deixar claro: não sejamos duais. Existe uma longa gradação e uma mescla dentro de uma mesma equipe, da independência e da não independência de um jogo. É possível que os gerentes de negócio sejam representantes do lado business da empresa, e a equipe de produção esteja de fato tentando criar algo belo, novo e artístico.

Hoje a indústria é muito diversa. Temos infinitos caminhos possíveis para se tornar um desenvolvedor de jogos. O que me agrada nesta definição do Indie é que ela inclui esses diferentes jeitos de fazer e lidar com o mercado. Se pensamos que um Indie é o verdadeiro artista criador, ele pode tanto ser rico como pobre, pode trabalhar com pixel art ou com 3D high poly, pode ter uma equipe de 100 pessoas ou de 1 pessoa. O que muda de fato é a intenção por trás da criação.

Com uma definição mais clara sobre o que é ser indie, podemos evitar confusões nos tantos eventos e festivais que hoje acontecem pelo mundo. Alguns barram a participação de jogos não-indies, e por isso abre-se a discussão sobre o assunto. Não podemos deixar a preguiça mental nos impedir de conversar sobre isso. Afinal, o que você é: Indie ou Main-stream?